Abro uma aba do meu navegador e me deparo com uma seção de fotos que explicam tudo. Não precisam de uma palavra. As palavras que escrevo aqui são uma tentativa frustrada de explicar o que eu senti quando vi as fotos. Me senti dentro da turba, em meio à fumaça.
“Coagido e debilitado, por não acreditar que tenho que atravessar a cidade caminhando, de uma zona a outra, por não entender o porquê de me cobrarem uma tarifa absurda. Uma cidade só existe pra quem se movimenta por ela.
Para mim, minha cidade vai existir. Nem que seja à força. À força dos meus pés. Ao suor dos meus passos. À fina sola do meu calçado. Atravessarei a cidade porque sei que eles precisam de mim. Os últimos dias tem se tornado mais violentos. Nem todos os olhos estão intactos: antes, eram só spray de pimenta. Hoje, já são balas de borracha. Já baixaram o hospital. Alguém talvez não volte a enxergar depois do embate de hoje.
Tenho que ir. Mal-alimentado; cansado, depois de trabalhar ou de estudar; desfalecido pela distância da caminhada. Não vou deixá-los lá, à espera de alguém que tenha se cansado, ou mesmo já não agüente mais caminhar de sua casa até sua escola, e de sua escola até aqui. Ou mesmo esteja preso. Ou ainda, ferido. Eles precisam de mim. Sou mais um engrossando a fileira, resistindo até que me levem – seja lá para onde for.
Temo. Não por mim, que já estou inconformado com o abuso e minhas bochechas sem carne já estampa minha silhueta magra e mal nutrida. Temo por minha mãe, meu irmão caçula, meu pai. Por minha esposa, que me espera em casa. Por meu filho, que me aguarda para o jantar.
Tudo isso passa por meus olhos e minha cabeça, mas meus pés não param. Tenho de caminhar para a concentração do ato. Camaradas me esperam, porque sabem que eu também não agüento. Não suporto mais essa tarifa absurda. Quero poder andar de coletivo, mas preciso que o transporte seja mais justo com seus preços.
Vou caminhando. Tomara que eu consiga voltar a minha casa hoje. Tomara que eu não seja preso. Tomara que eu não seja ferido. Tomara que eu consiga ver bons frutos da nossa luta. Ver com esses meus olhos que as balas de borracha não hão de acertar. Tomara.”




Foi isso. Isso e algumas lágrimas enquanto escrevia. Queria ser corajoso como um piauiense. Mas aqui na Paraíba também tem aumento. É nosso dever então nos juntarmos. Como copiei de um gaúcho mais cedo hoje, "não desista de quem desistiu".
João Jales
12/01/2012
fotos - midiaindependente.org
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