Era madrugada. Enquanto fumava na esquina, estava eu, conversando comigo mesmo, desprendido do universo e distante de tudo. Ou quase tudo. Um telefonema ao longe me incomodou. Aliás, nem chegou a ser incômodo. Foi mais curiosidade, mania feita querendo se disfarçar de “incômodo”. Surge uma reação em cadeia, como se fosse uma linha de pensamento em que cada pergunta não levava à uma resposta, e sim a mais outra pergunta.
“Que horas são mesmo? Quem ligaria à uma hora dessas? De onde ligariam? Pra onde era a chamada? Aliás, seria pra um orelhão? [Achei o barulho do toque parecido...]” e a mais encabulada: “O que alguém teria pra falar à uma hora dessas, ligando pra um telefone fixo [ou um orelhão, que seja!]
Imaginei alguém chegando de viagem; um falecimento; um chamado para um plantão; uma reunião de planejamento de emergência; um fim de namoro; um “oi, senti saudades”.
Jamais saberei de que se tratava a tal chamada: os toques silenciaram pouco tempo antes de eu terminar o cigarro. Não saberei sequer se ela foi completada. Se foram buscá-la no aeroporto, se alguém soube que perdeu seu ente; se o plantão extra foi cumprido; se a reunião aconteceu mais cedo na manhã seguinte; se o namoro terminou ou se fortaleceu naquela madrugada.
Tudo bem. Eu relevo. Não espero ninguém chegar de viagem; faz tempo que nenhum parente ou amigo morre [ainda bem!]; não sou plantonista; nada marcada mais cedo pra amanhã; não tenho namoro pra terminar.
Só não me conformo de ter que dormir sem ao menos o “oi, senti saudades”. Só isso me deixa incomodado.
2 Comentários:
Senti saudades... Sempre sinto.
Que bom que esse incômodo foi "esquecido" por aqui Limbonauta, suas leitoras e leitores sentiram-se lembrados! Grande abraço.
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