domingo, 11 de outubro de 2009

Tuas maçãs me alimentam.

Indignado com minha capacidade de não ter sorte. Ou algo mais, de ter azar. Sim, de ter azar porque não ter sorte é simplesmente ter que se garantir com aquilo que é fato, e não se deixar levar por especulações. Ter azar é não só não se deixar especular como ainda se precaver com aquilo que é tido como certo.

Maldito pneu. Furou novamente. O mesmo pneu. câmara diferente.

Se conseguisse encher com meus próprios pulmões a maldita câmara de ar, o teria feito. Por mais que meus alvéolos se rompessem, eu tentaria. Por mais que a graxa me lambuzasse, eu tentaria. Antes meus pulmões rasgados que meu coração partido.

Não fazia ideia da dor que me causava telefonar e avisar que o pneu havia furado novamente. Antes a moto fosse minha, teria eu tido o direito de descontar nela, chutá-la e mandá-la pra um ferro velho ali mesmo, naquela fatídica hora. Desfazê-la em pedaços e jogar aos quatro cantos do contorno em frente a universidade.

Cuecas e vinte Reais. Essa era a razão da minha viagem, que a infame motocicleta não queria que se concretizasse. Só era minha intenção encontrá-la perfumado, limpo, e minimamente provido de algo. Talvez tenha sido esse o meu mal. Pensar por demais nos outros.

Mas pensar nela pra mim é uma constante. Ela não é como os outros. Nunca foi. nunca vai ser, porque eu já a conheci assim. A fitei assim e assim a quis desde que a vi. Surreal é justamente isso acontecer quando é para ela. Os outros não deixaram de ser outros, mas, e ela? Deixará de sê-la? Deixar-me-á ela?

Tudo isso é o fruto do caroço que tenho dentro da cabeça, que pretensiosamente chamo de cérebro, conhecido popularmente como juízo. Fruto dos percalços e peripécias desse dia insolente. Queria por demais abraçá-la, beijá-la, sentir as maçãs de seu rosto juntas à graviola que parece ser o meu (minhas espinhas me enlouquecem). Queria sentir o pomar de lima e o cheirinho de pipoca na hora do filme. Triste é pouco pra o que estou sentindo. Sinto-me derrotado. Derrotado por um pedaço de borracha furado. Derrotado por um "não me ligue quando chegar" quando o que mais queria ouvir era um "Quer que eu busque você?".

Senti-me carente na pior das horas. Meu estômago roncava, e me subia à cabeça uma ânsia de vômito, que me afligia mais do que o fato de eu não ter o que vomitar. Queria chegar garboso, cheiroso, um exemplo.

Retornei faminto, esfarrapado e derrotado. E chorei quando não tive você.